Um Padre baiano na Missa Campal da Abolição

Autor: Pedro Juarez Pinheiro
Publicado em: 04/05/17

Padre Jos√© Alves Martins do Loreto ao lado do Frei Santa Catharina Furtado, em ilustra√ß√£o feita pelo Cartunista √āngelo Agostini, publicada na √ļltima p√°gina do Jornal D. Quixote, edi√ß√£o N¬ļ 59, ano 2, de 18 de abril de 1896.

 

Recentemente o Instituto Moreira singanitropin reviews Sales e a Fundação Biblioteca Nacional lançaram um portal onde disponibilizam quase 2,4 mil fotografias datadas da segunda metade do século XIX e início do Século XX. São fotografias em alta resolução que possibilitam a exploração de detalhes das cenas fotografadas. No acervo estão trabalhos de importantes fotógrafos brasileiros e estrangeiros radicados no Brasil, a exemplo de Guilherme Gaensly, Marc Ferrez, Revert, Henrique Klumb, Francisco Du Bocage, Militão Augusto de Azevedo, Augusto Malta, entre outros, como também algumas imagens cujo autor não foi possível identificar.

O projeto das duas institui√ß√Ķes traz √† tona fotografias importantes de diversas partes do Brasil. A maioria delas dizem respeito ao Rio de Janeiro, Bahia e S√£o Paulo. Na Bahia, aparecem fotografias da Cachoeira de Paulo Afonso, paisagens da Capital e do Rec√īncavo, e uma rica cole√ß√£o de retratos de escravos feitos por Marc Ferrez e Jo√£o Goston entre os anos de 1870 e 1885. Um dos grandes destaques do portal √© a cole√ß√£o de D. Thereza Christina Maria, fotos tiradas por D. Pedro II, al√©m de um conjunto de retratos da fam√≠lia imperial, feitos por Joaquim Insley Pacheco. Falta disponibilizar ainda a riqu√≠ssima cole√ß√£o de fotografias feitas pelo fot√≥grafo Fl√°vio de Barros, durante a Guerra de Canudos, cujos originais est√£o sobre a guarda do Instituto Moreira Sales.

Entre todas as imagens dispon√≠veis, uma que vem sendo bastante comentada e estudada √© uma fotografia de autoria de Ant√īnio Luiz Ferreira, feita durante a Missa Campal celebrada em a√ß√£o de gra√ßas pela Aboli√ß√£o da Escravatura, realizada no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888. Na celebra√ß√£o compareceram cerca de 30 mil pessoas, amplamente alcan√ßadas pela lente do fot√≥grafo, sendo poss√≠vel observar o interesse e curiosidade da maioria dos presentes no momento do clique. No canto esquerdo da fotografia, numa esp√©cie de altar improvisado para ocasi√£o est√£o a Princesa Isabel e seu marido, o Conde D‚Äôeu, e em torno deles diversas autoridades e personalidades da √©poca. J√° foram identificados o escritor Machado de Assis, Marechal Hermes da Fonseca, Jos√© do Patroc√≠nio, Maria Jos√© Velho de Avelar (Baronesa de Muritiba) e o cartunista √āngelo Agostini, s√≥ para citar os mais conhecidos.

Muitos festejos foram realizados em todo o pa√≠s para a comemora√ß√£o da aboli√ß√£o. No Rio de Janeiro, uma comiss√£o com representantes de diversos jornais da √©poca, como o Jornal do Commercio, Gazeta de Not√≠cias, Revista Illustrada, A √Čpoca, Gazeta da Tarde, Novidades, Ap√≥stolo e Di√°rio de Not√≠cias foi respons√°vel pela realiza√ß√£o de diversos eventos, inclusive a Missa Campal. Representava o Jornal O Apostolo, o seu redator e s√≥cio propriet√°rio o Padre Jos√© Alves Martins do Loreto.

 

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Martins do Loreto, como era mais conhecido, nasceu na Bahia no ano de 1845 e era filho do Professor Ant√īnio Martins Ferreira (1813-1896) e Ana Francisca Carneiro e neto paterno de Jos√© Ferreira de Carvalho (1783-1866), fundador da Vila do Raso, atual Araci, Bahia. Ordenou-se Padre em 1868, iniciando sua carreira eclesi√°stica como vig√°rio da Igreja da Victoria, em Salvador, onde tamb√©m dirigiu junto com seu irm√£o, o Padre Urbano Cec√≠lio Martins um col√©gio chamado o Atheneu. Em 1887, acometido por uma enfermidade, pede licen√ßa ao ent√£o Arcebispo da Bahia Dom Lu√≠s Ant√īnio dos Santos (1817-1891) e segue para se tratar no Rio de Janeiro. Passados oito meses da licen√ßa, e sentindo que os ares cariocas fizeram bem √† sua sa√ļde, escreve ao mesmo Arcebispo pedindo autoriza√ß√£o para renunciar √† Paroquia da Victoria, e se estabelece definitivamente no Rio.

O Padre Martins do Loreto, morando no Rio de Janeiro, rapidamente cria uma rede de rela√ß√Ķes importantes na capital do Imp√©rio. A partir do ano de 1888, junta-se aos Padres Jo√£o Scaligero e Augusto Maravalho e torna-se editor-chefe do Jornal Cat√≥lico O Apostolo. Segundo o escritor Oscar Lustosa, no Jornal O Ap√≥stolo colaboravam ‚Äúfiguras de grande proje√ß√£o nos meios eclesi√°sticos de ent√£o‚ÄĚ, o que refor√ßa a import√Ęncia de Loreto dentro do Clero e jornalismo carioca.

O Jornal O Apostolo foi fundado em 1866 pelo monsenhor Jos√© Gon√ßalves Ferreira e era um peri√≥dico dedicado aos interesses da Igreja Cat√≥lica. Sobre a quest√£o da escravid√£o, fazendo uma leitura em algumas de suas edi√ß√Ķes, percebe-se que aos poucos ia acompanhando e defendendo a causa abolicionista, isto √© claro, dentro do que era interessante para a Igreja. Era quase unanimidade todos os jornais da √©poca se posicionarem a favor, o que ficou mais frequente ainda depois do ano de 1872, com a lei do ventre livre. Martins do Loreto, como j√° foi citado, chegou √† reda√ß√£o do O Apostolo em 1888, ano em que aconteceria a aboli√ß√£o e provavelmente se posicionara a favor da causa abolicionista, constantemente j√° discutida pelo peri√≥dico.

Al√©m da posi√ß√£o que ocupava no Clero carioca, o que faz Martins do Loreto figurar entre diversas personalidades e autoridades e ser fotografado durante a realiza√ß√£o da Missa Campal de 17 de maio √© sua import√Ęncia como Jornalista e articulador de O Apostolo. Era amigo pr√≥ximo de Jos√© do Patroc√≠nio (1854-1905), uma das figuras mais importante no movimento abolicionista. No ano da morte de Loreto, em 1896, O Apostolo publica diversas homenagens de amigos, e uma dessas √© a de Jos√© do Patroc√≠nio.

A identifica√ß√£o do Padre Loreto na fotografia de Ant√īnio Luiz Ferreira s√≥ foi poss√≠vel atrav√©s de compara√ß√£o feita a partir de uma ilustra√ß√£o que o cartunista √āngelo Agostini (1843-1910) fez para o Jornal Dom Quixote, na edi√ß√£o N¬ļ 59, ano 2, de 18 de abril de 1896. Na publica√ß√£o, feita por ocasi√£o de sua morte, h√° um texto na p√°gina 3 intitulado de ‚ÄúNo p√ļlpito e na impressa‚ÄĚ onde o jornal o homenageia com uma breve biografia e no final da p√°gina, ocupando todo espa√ßo, a ilustra√ß√£o de Agostini que o retratou ao lado do Frei Santa Catarina Furtado, falecido tamb√©m no mesmo per√≠odo que Loreto.

MISSA 2

Detalhe da fotografia de Antonio Luis Ferreira, onde aparecem autoridades imperiais, clericais e alguns jornalistas.

 

Marca√ß√£o com a identifica√ß√£o de algumas personalidades presentes na fotografia da Missa Campal. O padre Loreto √© o n√ļmero 21

 

1 ‚Äď Princesa Isabel (1846-1921) ‚Äď princesa imperial do Brasil e tr√™s vezes regente do Imp√©rio do Brasil. Ficou conhecida como a¬†Redentora¬†por ter assinado a Lei √Āurea.

2 ‚ÄstLuis Filipe Maria Fernando Gast√£o de Orl√©ans, o conde d¬īEu (1842-1922) ‚Äď pr√≠ncipe do Brasil por seu casamento com a princesa Isabel.

3 ‚Äď N√£o identificada.

4 ‚Äď Possivelmente o¬†Marechal Hermes Ernesto da Fonseca (1824-1891) ‚Äď pol√≠tico e militar brasileiro, irm√£o do general Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, ¬†e pai do futuro presidente do Brasil, Hermes Rodrigues da Fonseca.

5 ‚ÄstMachado de Assis (1839-1908) ‚Äď um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

6 ‚Äď Possivelmente Jos√© de Miranda da Silva Reis,¬†marechal de campo e¬†Bar√£o Miranda Reis (1824-1903) ‚Äď foi ajudante de campo e camarista do imperador Pedro II e participou da Guerra do Paraguai. Exerceu importantes cargos, dentre eles foi ministro do Superior Tribunal Militar e dirigiu a Escola Superior de Guerra e o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro.

7¬†‚Äď Possivelmente Jos√© do Patroc√≠nio (1854-1905) ‚Äď escritor e jornalista, uma das maiores figuras do movimento abolicionista. Na foto est√°¬†segurando a m√£o de seu filho primog√™nito,¬†que ao fim da missa foi beijado pela princesa Isabel.

8 ‚Äď Jornalista (?) n√£o identificado.

9 ‚Äď Possivelmente Jos√© Ferreira de Souza Araujo, conhecido como Ferreira Araujo(1848-1900) ‚Äď um dos mais importantes jornalistas da √©poca, foi¬†diretor da¬†Gazeta de Not√≠cias¬†e sob o pseud√īnimo¬†Lulu S√™nior¬†escreveu as muito populares colunas¬†Macaquinhos no S√≥t√£o,¬†Balas de Estalo¬†e¬†Apanhados.¬†Foi¬†o¬†vice-diretor¬†da Comiss√£o Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Aboli√ß√£o.

10 ‚ÄstThomaz Jos√© Coelho de Almeida (1838-1895) ‚Äď ministro da Guerra, integrante do Gabinete de 10 de mar√ßo de 1888.

11¬†‚Äď Rodrigo Silva (1833-1889) ‚Äď ministro dos Neg√≥cios da¬†Agricultura e interino dos Neg√≥cios Estrangeiros,¬†integrante do Gabinete de 10 de mar√ßo de 1888.

12- Jos√© Fernandes da Costa Pereira Junior (1833-1899) ‚Äď ministro do Imp√©rio,¬†integrante do Gabinete de 10 de mar√ßo de 1888.

13-¬†Jo√£o Alfredo Correia de Oliveira (1835-1919) ‚Äď presidente do Conselho de Ministros do Gabinete de 10 de mar√ßo de 1888.

14- Maria Jos√© Velho de Avelar, Baronesa de Muritiba (1851-1932) ‚Äď dama do Pa√ßo e amiga √≠ntima da princesa Isabel.

15- Maria Amanda de¬†Paranagu√° D√≥ria, Baronesa de Loreto (1849-1931) ‚Ästdama do Pa√ßo e amiga √≠ntima da princesa Isabel.

16- Fernando Mendes de Almeida (1845-1921) ‚Äď na √©poca, diretor e redator-chefe do¬†Di√°rio de Not√≠cias. Era o segundo secret√°rio da Comiss√£o Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Aboli√ß√£o.

17- Jornalista (?) n√£o identificado.

18- Jornalista (?) n√£o identificado.

19- Senador ou deputado (?) n√£o identificado.

20-¬†Possivelmente √āngelo Agostini (1843-1910) ‚Äď italiano, um dos primeiros e mais importantes cartunistas do Brasil. Fez uma intensa campanha pela aboli√ß√£o da escravatura. Fundou e colaborou com diversos jornais e revistas, dentre eles a ‚ÄúRevista Illustrada‚ÄĚ, que circulou entre 1876 e 1898.

21- Padre Jos√© Alves Martins do Loreto (1845 ‚Äď 1893), redator e s√≥cio propriet√°rio do jornal ‚ÄúO Ap√≥stolo‚ÄĚ.

√Ä esquerda da fotografia, est√£o v√°rios padres diante do altar, que ainda n√£o conseguimos identificar. Dentre eles, segundo a imprensa da √©poca, estariam¬†o celebrante da missa, padre¬†Cassiano Coriolano Collona,¬†capel√£o do Ex√©rcito e um dos fundadores da Confedera√ß√£o Abolicionista, criada em 19 de fevereiro de 1888; o padre-mestre Escobar de Ara√ļjo, vig√°rio de S√£o Crist√≥v√£o; os padres¬†Castelo Branco e Telemaco de Souza Velho e o padre Loreto, agora identificado.

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