Raizes

Autor: Lena Castello Branco
Publicado em: 02/06/17

Cel. Vicente Ferreira da Silva , sua esposa Virginia Constantina de Oliveira e os filhos Cirydi√£o, Aura, Deraldina e Esmeraldo. c1902

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nessa tarde quente de novembro, atendo o telefone e uma voz desconhecida identifica-se: √© algu√©m de nome Juarez, ligando de Araci, na Bahia. Deseja falar comigo mesma, chama-me de ‚Äúprofessora‚ÄĚ e diz corretamente meu nome e os (compridos) sobrenomes. Coloco-me √† disposi√ß√£o e come√ßamos uma agrad√°vel conversa.

Araci √© uma cidade localizada a cerca de 200 quil√īmetros da capital da Bahia, na regi√£o Noroeste do estado. Fica √† margem da BR-116, no semi-√°rido, pr√≥xima de Serrinha e Tucano, munic√≠pio do qual foi desmembrada, em 1890, a vila de Nossa Senhora da Concei√ß√£o do Raso ‚Äď depois Vila do Raso, rebatizada como Araci. Por ali passavam as manadas de gado da Casa da Ponte, cujas sesmarias iam do litoral baiano ao Piau√≠.

Meu saudoso pai nasceu em Araci. Nunca tive oportunidade de visitar a localidade; mas sei que meu av√ī paterno foi seu intendente (prefeito), e minha tia Aurinha, professora de gera√ß√Ķes de aracienses. Tenho not√≠cia tamb√©m de que meus av√≥s paternos tinham casa na Pra√ßa da Matriz, mas residiam na fazenda do Recreio, na encosta de uma serra pr√≥xima.

Pergunto ao meu interlocutor como descobriu meu telefone e ele diz que foi pela Internet. Est√° bem informado: conhece meu curr√≠culo, √© leitor do blog que mantenho e me encontrou tamb√©m no facebook… √Č muita perseveran√ßa, penso eu, e muita tecnologia!

O papo engrena: sinto-me feliz em falar com um conterr√Ęneo dos meus parentes baianos, que conhe√ßo pouco. Rec√©m formado em engenharia civil pela Escola Polit√©cnica da Bahia, meu pai, Cyridi√£o Ferreira da Silva, foi trabalhar no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, no Piau√≠ e no Maranh√£o, aonde viria a casar-se com minha m√£e.

Por motivos diversos, manteve-se afastado de Araci e da Bahia at√© aposentar-se, quando passou a residir em Salvador. Com minha m√£e, fez uma visita aos velhos pagos, mas voltou desencantado: nada mais havia da fazenda ancestral e as pessoas que encontrara n√£o eram as mesmas do seu tempo…√Č a sina dos idosos e dos saudosistas: guardados na mem√≥ria, os lugares e as fisionomias mant√™m um vi√ßo que a realidade inexoravelmente desbota e corr√≥i.

Juarez identifica-se como pesquisador da hist√≥ria de Araci e diz-se interessado em identificar e ter not√≠cias dos descendentes do coronel Vicente Ferreira da Silva, meu av√ī paterno. Acrescenta que ele foi pessoa de destaque no munic√≠pio; e que a cidade agora se empenha em ampliar o conhecimento de sua pr√≥pria hist√≥ria, inclusive com a instala√ß√£o de um Museu e um Centro de Cultura.

De conversa em conversa, chegamos √† testobolin conclus√£o de que somos parentes: Juarez √© tetraneto de uma irm√£ da minha av√≥ Virg√≠nia, filhas do propriet√°rio da fazenda da Madeira, afamada na regi√£o. Naqueles tempos distantes, receberam educa√ß√£o formal, ou seja, sabiam ler, escrever, fazer contas, conheciam a doutrina crista, talvez arranhassem o franc√™s ‚Äď o que as distinguia da maior parte das mo√ßas de seu tempo.

Na cr√īnica da fam√≠lia, √© celebrada em prosa e verso a hist√≥ria de amor tecida entre Virg√≠nia e Vicente. Os dois jovens eram primos: ela, do ramo rico da fam√≠lia; ele, do lado pobre. Ela, estudada e prendada; ele, de poucas letras, com um viol√£o a tiracolo, pervagava pelo sert√£o fazendo serestas e negociando com gado.

Vicente era alto, desempenado, olhar inteligente e fei√ß√Ķes bonitas ‚Äď e logo conquistou o cora√ß√£o da priminha letrada. O pai dela op√īs-se ao namoro, de forma irredut√≠vel. Irremediavelmente apaixonados, fugiram numa noite sem lua. Respeitoso, o jovem enamorado levou-a na garupa do cavalo para Araci, onde a entregou aos cuidados da madrinha. Ali, ela ficou bem guardada, at√© que veio o padre em desobriga e os casou. E Vicente prometeu √† amada: ele lhe daria uma casa melhor do que a de seus familiares; e todos os filhos que viessem a ter seriam doutores.

Cumpriu o prometido. Empreendedor e din√Ęmico, ampliou o neg√≥cio de gado: at√© na distante S√£o Jos√© do Duro, em Goi√°s, ele mantinha prepostos que negociavam em seu nome a compra de boiadas. Na esta√ß√£o da seca, Vicente ia pessoalmente fazer os pagamentos e conduzir as manadas para Feira de Santana, onde as engordava para vendia. Era algo cicl√≥pico: vencer centenas de l√©guas a cavalo, em um mundo r√ļstico e selvagem, sem os m√≠nimos confortos da civiliza√ß√£o; e repetir esse p√©riplo ano ap√≥s ano. Talvez lhe amenizassem as noites as notas do viol√£o, dedilhado √† luz das estrelas.

Não satisfeito, o intrépido sertanejo montou um curtume de peles de cabras, que exportava para os Estados Unidos. Os frutos de tantos trabalhos e canseiras permitiram-lhe educar os filhos em Salvador da Bahia e formá-los em cursos superiores. E não somente os homens: seguindo a tradição de mulheres letradas na família, minha tia Deraldina, que era normalista, veio a formar-se na Escola de Odontologia da Bahia, uma das primeiras moças baianas a fazê-lo.

Ainda haveria muito a contar. Juarez ‚Äď meu rec√©m-identificado parente ‚Äď tamb√©m tem hist√≥rias e documentos interessantes para comentar. Vamos trocar informa√ß√Ķes e figurinhas. Com a certeza de que este √© apenas o primeiro reencontro com ra√≠zes bem plantadas em solo baiano.

Lena Castello Branco Ferreira ¬†√© descendente da fam√≠lia de Araci, neta do Cel. Vicente Ferreira da Silva e sobrinha das professoras Aura e Deraldina. √Č Doutora em Hist√≥ria e Professora Universit√°ria aposentada. Atualmente √© colunista do Di√°rio da Manh√£, onde escreve semanalmente. √Č tamb√©m autora de diversos livros, a exemplo do premiado Arraial e Coronel: (dois estudos de Hist√≥ria Social).