História do Jornal de Serrinha, Bahia

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Publicado em: 12/06/18

Este foi o nome de um antigo jornal que levava ao povo de Serrinha, pequena cidade do interior situada no semi-√°rido baiano, as mais importantes not√≠cias dessa terra e demais acontecimentos de √Ęmbito nacional. Na √©poca em que surgiu, poucos eram aqueles que de alguma forma estavam a par das novidades da capital, ou Ba√≠a, como era de costume interiorano de se nomear a Cidade do Salvador. Geralmente tais not√≠cias chegavam at√© ali trazidas pelo ‚Äúnoturno‚ÄĚ, o trem de passageiros e carga que de passagem deixava as malas do correio, no interior das quais alguns jornais de assinantes locais. Semanalmente as mais importantes not√≠cias, depois de selecionadas, chegavam aos demais habitantes, √°vidos por saber das novidades da distante Capital, assim como de notas e outros acontecimentos da pr√≥pria cidade e regi√Ķes vizinhas. Desse modo cumpria ‚ÄúO Serrinhense‚ÄĚ com a miss√£o de bem informar a gente de sua terra, gra√ßas ao seu criador Reginaldo Cardoso Ribeiro, cuja hist√≥ria singela √© nosso assunto de hoje.

 

Aspecto de Serrinha √† √©poca em que circulava “O Serrinhense”.

 

Três símbolos da cidade, o Coreto, a Igreja e o velho Cruzeiro e ao fundo o prédio do Paço Municipal.

 

Casarios na Praça Luiz Nogueira

 

Reginaldo era um¬†dos nove filhos do Major Synphr√īnio e Sinh√° Lia, nascido em Serrinha em fevereiro de 1891. Sua fam√≠lia tinha poucos recursos, assim como a cidade em que viviam e por isso foi obrigado a trabalhar desde muito cedo, n√£o tendo sequer conclu√≠do o curso prim√°rio formal, mas os ensinamentos recebidos da pr√≥pria m√£e perecem ter sido suficientes para alimentar seu sonho de ser algu√©m ligado ao jornalismo.

 

Os pais, Maria Herm√≠nia a “Sinh√° Lia” e o Major Synphr√īnio Cardoso Ribeiro.

 

Muito inteligente e com essa tend√™ncia para as letras, aos 15 anos j√° escrevia pequenos ‚Äújornaizinhos‚ÄĚ manuscritos que tentava comercializar nos finais de semana na feira livre de sua cidade. Essa voca√ß√£o o leva j√° no ano de 1907, portanto com apenas 16 anos, a criar a ‚ÄúTribuna¬† de Serrinha‚ÄĚ, um dos primeiros jornais serrinhenses ainda elaborado de forma artesanal e bastante prec√°ria. Reginaldo na adolesc√™ncia come√ßa a sentir os primeiros sinais de problemas relacionados com a sua vis√£o, provavelmente por conta de alguma doen√ßa cong√™nita ou adquirida na juventude, mas isso n√£o o impede de continuar a perseguir seu sonho e adquire alguns equipamentos de impress√£o apropriados, fundando a partir da√≠ o seman√°rio ‚ÄúO Jornal de Serrinha‚ÄĚ.

 

 

Tendo se agravado sua enfermidade, em 1910 com apenas 19 anos perde totalmente a vis√£o, mas mesmo assim n√£o abandona sua miss√£o de manter informado o povo de sua terra. Tempos depois, em 18 de maio de 1924 esse jornal passa a se chamar ‚ÄúO Serrinhense‚ÄĚ um ‚ÄúHebdomad√°rio, Imparcial, Noticioso e Liter√°rio‚ÄĚ j√° melhor estruturado conta com uma carteira razo√°vel de assinantes e anunciantes que lhe permite faz√™-lo circular regularmente. Nessa √©poca as not√≠cias vindas da Ba√≠a j√° chegam diretamente para a sua reda√ß√£o e depois de classificadas s√£o publicadas com a devida cr√≠tica em forma de editorial, ora escrito por ele mesmo ou por algum de seus colaboradores. As personalidades mais importantes da pol√≠tica serrinhense e seus feitos tamb√©m s√£o mat√©ria freq√ľente no seman√°rio.

 

Primeira p√°gina de um dos exemplares do ¬† ¬† “Jornal de Serrinha”

 

Pitoresco an√ļncio de medicamento popular da √©poca.

 

Interessantes colunas de variedades tamb√©m chegam semanalmente aos leitores e dessa forma vai se tornando cada dia mais um importante formador de opini√£o junto √† sociedade de sua terra. Um dos seus sobrinhos, Luiz Nogueira Filho oSaint-Clair por diversas vezes o ajudava, n√£o s√≥ na reda√ß√£o como tamb√©m em reportagens diversas. Essa pr√°tica no jornal do tio R√©gi, irm√£o de sua m√£e √Āurea Herm√≠nia, o levou a escrever com certa regularidade artigos variados para o mesmo jornal, inclusive quando saiu de Serrinha para tentar a vida no Rio de Janeiro e S√£o Paulo em 1921 a 33. Reginaldo orgulhava-se por haver despertado no sobrinho o gosto pelo jornalismo e de certo modo o influenciou para seguir essa carreira. Saint-Clair em um gesto ousado, para um jovem de vinte e quatro anos em terras distantes, talvez inspirado pelo per√≠odo em que passou no jornal de seu tio R√©gi, funda o ‚ÄúB√°lsamo Jornal‚ÄĚ em novembro de 1929 na cidade de B√°lsamo distrito de Mirassol no interior de S√£o Paulo. Os acontecimentos do interior baiano tomam grande parte das not√≠cias como, por exemplo, as incurs√Ķes de Lampe√£o e seu bando de cangaceiros apavorando o povo nordestino.

Matéria sobre as atrocidades que estavam sendo cometidas pelo bando de Lampião, escrita por Luiz Nogueira Filho.

 

Reginaldo ainda permanece mantendo e dirigindo seu jornal paralelamente √† livraria e tipografia que passou a funcionar no mesmo local at√© o ano de 1932, aproximadamente, quando por for√ßa das circunst√Ęncias e mudan√ßa da fam√≠lia para Juazeiro da Bahia, o vende para Br√°ulio de Lima Franco que d√° continuidade ao jornal at√© o ano de 1952.

Estava casado com Maria Amélia Oliveira Ribeiro e mudam-se de Juazeiro tempos depois, fixando residência definitivamente em Belo Horizonte com os filhos, Maria Regina, Antonio Reginaldo, José Reginaldo e Walter Cardoso Ribeiro.

 

Reginaldo Cardoso Ribeiro o criador do jornal “O Serrinhense”.

Uma bela hist√≥ria de idealismo e supera√ß√£o, de um homem simples do interior baiano que nunca abandonou seu sonho embora nunca o tenha ‚Äúenxergado‚ÄĚ como aqueles aos quais dedicou uma grande parcela de sua vida. Fica assim registrada a¬†nossa singela homenagem, para que sirva de exemplo aos jovens serrinhenses das atuais e pr√≥ximas gera√ß√Ķes.

 

FONTES:

http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/2011_03_01_archive.html

“Nogueira Ra√≠zes e Frutos – Cr√īnica de uma bela Fam√≠lia”

“Serrinha A Coloniza√ß√£o Portuguesa numa cidade¬†do sert√£o da Bahia”-Tasso Franco