Um capítulo da história de Araci: Zezinho do Armarinho

Autor: Franklin Carvalho
Publicado em: 04/06/20

At√© a inaugura√ß√£o da BR 116, em 1951, a principal estrada de acesso a Araci passava onde hoje √© a pra√ßa principal (Pra√ßa Nossa Senhora da Concei√ß√£o) da cidade. A estrada vinha da Rua 7 de setembro e seguia rente √† cal√ßada da Prefeitura. Naquele tempo, todo o quarteir√£o de casas vizinhas √† Prefeitura era formado por pens√Ķes onde caminh√Ķes carregados de migrantes, os chamados paus-de-araras,¬† paravam, e seus passageiros podiam comer e pernoitar. A seq√ľ√™ncia de hospedarias ia at√© o posto de gasolina que ficava onde hoje est√° o novo cemit√©rio da cidade. Jos√© Tertuliano da Silva, o Seu Zezinho do Armarinho, lembra bem dessa √©poca e afirma que Luiz Gonzaga se hospedou numa daquelas casas, pertencente a Jos√© Lima, principal l√≠der pol√≠tico da Cidade. Segundo ele, tamb√©m √© poss√≠vel que Lu√≠s In√°cio Lula da Silva, o presidente, tenha parado naquele ponto quando seguia com a sua fam√≠lia para S√£o Paulo. Por falar em viajantes que fizeram sucesso, o pr√≥prio Zezinho do Armarinho, que nasceu em 1939 no povoado do Po√ßo-Grande, tamb√©m precisou sair cedo de casa, ainda adolescente, para ganhar a vida em Alagoinhas. Com uma postura silenciosa, de quem ouve mais do que fala, ele conquistou a Bahia antiga, cidade de S√£o Salvador, e voltou para Araci vitorioso, para abrir um dos estabelecimentos mais vistosos, a barbearia mais chique da regi√£o sisaleira nos anos 1960.

O menino que nasceu pobre do sert√£o, que s√≥ tinha a necessidade como guia, virou um exemplo de triunfo entre os homens da cidade. Quando chegou ainda mo√ßo em Alagoinhas, Zezinho fez amizade com um funcion√°rio da empresa Leste Ferrovi√°ria, que prometeu engaj√°-lo na Marinha. O homem pediu, no entanto, um tempo para providenciar os documentos e recomendou ao rapaz voltar a Araci e aprender alguma profiss√£o que fosse √ļtil na carreira militar, como a de barbeiro, por exemplo. Por isso, Zezinho voltou √† sua terra natal e, num dia de feira, entrou na barbearia de Man√© Camilo, a √ļnica na sede de Araci, na Rua 7 de setembro, dizendo que sabia cortar cabelo e usar a navalha. Apareceu logo um cliente com uma barba comprida e Zezinho cortou fundo na pele com a sua inexperi√™ncia na l√Ęmina. √Č claro que o dono do estabelecimento percebeu, mas admitiu o jovem no emprego assim mesmo, convencido da sua vontade de trabalhar. E como o tempo passou e a marinha n√£o o convocou, Zezinho acabou indo para Salvador, onde arrumou coloca√ß√£o no Sal√£o Minerva, uma das sete portas de barbeiro que o antigo Mercado Modelo possu√≠a (o antigo mercado ficava onde hoje est√° o monumento de M√°rio Cravo, em frente ao Elevador Lacerda). ‚ÄúAli, eu via toda a malandragem que havia na cidade grande e no porto. Ficava de olho em tudo, n√£o para aprender a fazer o mal, somente para me defender‚ÄĚ, lembra Zezinho. Ele conta que, na √©poca, morava no bairro da Ribeira e desfrutava, com o seu sal√°rio e a solteirice, do glamour da Rua Chile e do centro da capital da Bahia.

Entre 1959 e 1962 Zezinho morou em S√£o Paulo, trabalhando numa rua pr√≥xima ao Museu do Ipiranga . Visitou Santos e se sentiu na Bahia ao conhecer a esta√ß√£o ferrovi√°ria, muito semelhante √° esta√ß√£o da Cal√ßada. Tanto em S√£o Paulo quanto em Santos, freq√ľentava a vida noturna, indo a boates e dancings, inclusive naqueles em que dan√ßarinas eram pagas por minuto de acompanhamento. Mesmo assim n√£o se adaptou √†quelas cidades e preferiu voltar a Salvador, onde encontrou ocupa√ß√£o no velho bairro da Ribeira. Em 1964, j√° com 25 anos, decidiu retornar para Araci e ficou trabalhando na obra que mudaria o Po√ßo Grande; a constru√ß√£o do a√ßude que tem o nome daquele povoado. Ganhou a confian√ßa do engenheiro, de quem cortava o cabelo nas horas vagas, e recebeu autoriza√ß√£o para montar uma barbearia improvisada, onde passou a atender os trabalhadores √† noite, nos seus momentos de folga. Casou em 1966, com Delzita Lima da Silva, que √© de Valente, mas residia no Po√ßo Grande com um tio. Voltou ent√£o a residir na sede, na Pra√ßa Nossa Senhora da Concei√ß√£o, onde abriu uma barbearia que tinha tudo o que podia haver de melhor na √©poca: espelhos nas paredes, cadeiras regul√°veis da Ferrance e uma clientela de pol√≠ticos, professores e homens de todas as profiss√Ķes, inclusive os mais humildes. Cuidando de um e de outro fregu√™s, ele acabava sabendo em primeira m√£o de acontecimentos pol√≠ticos, crimes, casamentos e todas as not√≠cias da cidade e do mundo.

Com o passar do tempo, come√ßou a oferecer os servi√ßos de relojoeiro e a vender miudezas. Hoje, ele recorda, ‚ÄúFiz quest√£o de vender jornais. O interesse n√£o era financeiro, mas fazer com que as pessoas da cidade pudessem se informar sobre o mundo l√° fora, trazer mais cultura e conhecimento para Araci. Poucas pessoas tinham r√°dio e era preciso alertar a comunidade sobre os horrores da ditadura‚ÄĚ. Foi esse esp√≠rito de modernidade que fez Zezinho questionar o fato de os negros e pobres viverem sem acesso a emprego, sal√°rio, ou aposentadoria. Na sua mente, as injusti√ßas sociais precisavam ter um fim, e por isso ele come√ßou a dialogar com cidad√£os que tinham as mesmas aspira√ß√Ķes. Eram tempos dif√≠ceis, no entanto, e a ditadura militar proibia qualquer debate de mudan√ßa.

Carros pipa na Praça da Conceição

Carros pipa na Praça da Conceição

 

Os grupos pol√≠ticos de esquerda estavam na clandestinidade e gente como Zezinho, que detinha muitas informa√ß√Ķes sobre o movimento, poderia desaparecer a qualquer hora. Por isso, muitas pessoas evitavam comprar no armarinho. Primeiro por preconceito contra os comunistas, depois por medo de serem vinculados aos ‚Äúagitadores‚ÄĚ. Quando n√£o havia op√ß√£o, o comprador pedia para ser despachado na porta, alegando pressa. Zezinho, para provocar, fazia-se de desapercebido e atendia com toda a calma, j√° que ele pr√≥prio nada temia. A mesma coisa acontecia nas rodas de conversa, logo que ele chegava, as pessoas se dispersavam. O barbeiro n√£o se importava, sabendo que um dia as coisas teriam que mudar. Ao mesmo tempo, sua casa e os seus companheiros eram espionados por estranhos que chegavam a Araci. Esse foi o caso de um hippie que se fazia de maluco, mas carregava um par de algemas, e de uma fam√≠lia cuja filha mo√ßa procurava namorar os homens de oposi√ß√£o ao governo. ‚ÄúComo eu tinha a barbearia no centro da Cidade, minha tarefa era ficar ligado e informar meus companheiros, para que n√£o ca√≠ssem em armadilhas da repress√£o‚ÄĚ, explica Zezinho. Os anos foram passando, veio a abertura democr√°tica, em 1979, e Zezinho se integrou, juntamente com Joaquim Messias, Nicolau Carvalho e outros, ao Partido do Movimento Democr√°tico Brasileiro (PMDB), tendo contribu√≠do decisivamente com a elei√ß√£o de Waldir Pires em 1985.

J√° no governo Waldir, Zezinho organizou um semin√°rio sobre a reorganiza√ß√£o do munic√≠pio e sugeriu ao Governo do Estado a pavimenta√ß√£o de uma estrada ligando Nova Soure a Santa Luz, o que seria um importante atalho nas rotas baianas, e incluiria Araci entre os principais roteiros da Bahia, carreando desenvolvimento para esta terra. A id√©ia n√£o chegou a ser implantada, mas Zezinho acredita que um dia os pol√≠ticos locais poder√£o entender e retomar o projeto. Ele lembra com orgulho, tamb√©m, a luta travada ao lado do Grupo Social de Araci (Grusar), para a instala√ß√£o do servi√ßo de √°gua na cidade, no fim da d√©cada de 1970. Tamb√©m acompanhou e arquivou um grande n√ļmero de jornais com informa√ß√Ķes sobre a descoberta do ouro na cidade e outros eventos pol√≠ticos e do cotidiano. De tudo o que guardou, ele entregou uma c√≥pia para o Centro Cultural de Araci passar √†s futuras gera√ß√Ķes.

Zezinho aposentou a tesoura de barbeiro, mas continua com o seu armarinho na Pra√ßa Nossa Senhora da Concei√ß√£o. Recentemente, uma doen√ßa ainda n√£o identificada o deixou preso a uma cadeira, e ele passa os dias a contemplar o movimento de pessoas na pra√ßa, cumprimentando os transeuntes e dando conselhos aos que o procuram. Ele sabe que a sua vida sempre esteve ligada a esta pra√ßa e √†s pessoas desta cidade, que ele t√£o bem serviu. Foi daqui que projetou uma imagem de profissional e homem respons√°vel para os munic√≠pios vizinhos. Ele veio, viu e venceu, e argumenta: ‚ÄúParticipei da grande universidade da vida. N√£o conhe√ßo tudo, mas de tudo sei um pouco, e algumas coisas a fundo‚ÄĚ. Tamb√©m oferece uma mensagem aos mais jovens: ‚ÄúEu sempre gostei de conversar com os mais velhos, a minha vida toda. Aprendi muito com isso; e gra√ßas a Deus, pude ver muita coisa‚ÄĚ.

Zezinho do Armarinho faleceu em 2010.

Franklin Carvalho

Jornalista