Semana Santa em Araci – Momentos de perfeição estética

Autor: Franklin Carvalho
Publicado em: 31/05/17

Foto: Pedro Juarez

A tradição da Semana Santa em Araci (BA) inclui duas cerimônias que se destacam pelos seus significados, beleza e emoção ímpares, mesmo numa região, o semi-árido baiano, onde a devoção é manifestada de forma marcante. A primeira destas cerimônias, a Procissão do Fogaréu, pode ser reconhecida à distância, pelas fotografias que registram centenas de fiéis iluminando a noite da quinta-feira portando velas, subindo e descendo o morro do Bonfim. O segundo evento exige o comparecimento, certa dose de dedicação e mesmo de sacrifício. É o conjunto definido pela procissão e pela vigília da Paixão, ambas na sexta-feira, iniciando por volta das 18 horas e prosseguindo, num crescente de sentimento, até a meia-noite.
Da quinta-feira, pouco se necessita falar, já que as fotografias são reveladoras e estão hoje em vários sítios na internet e nas redes sociais. Resta anotar que a própria Igreja tem providenciado nos últimos anos copos de papel cada vez mais decorados que são entregues aos fiéis para protegerem as velas dos ventos. É um produto artesanal, vendido à porta do templo momentos antes da procissão do fogaréu por um preço simbólico.
Quanto à Paixão, é preciso integrar-se à procissão que percorre as ruas do centro para entender o coro comovido de homens e mulheres dos mais distantes cantos do município,  inclusive da zona rural, idosos, jovens e crianças que perpetuam uma solenidade antiquíssima, reiterando as canções que marcaram a história da cidade. De fato, é indispensável estar cercado pelas gentes, principalmente nos momentos em que o cortejo dobra as esquinas, para ver subir o lamento até o tom uníssono. Os “puxadores” das rezas recitam as estrofes, mas é na hora do refrão que se percebe o sentimento coletivo da massa sempre contrita, em perfeita sintonia, revelando seus valores e sua cultura.
É como um momento de transe geral, que só quem viveu pode descrevê-lo, e que dura muito pouco, tanto quanto a brevidade do percurso. Ao mesmo tempo profundo e envolvente, a cerimônia toma cada participante de tal forma que é inevitável se integrar. Seria como estar numa onda e não singrá-la, ou ver as festas mais modernas e elaboradas, cada vez mais cheias de recursos audiovisuais, sem se contagiar. Soma-se a tudo isso a marcante interpretação de Verônica – sim, o termo é interpretação, já que é realizada com toda a dignidade do teatro – feita por uma moça do povo que pronuncia a cada esquina: “Ouvi todos que passais a caminho do labor, atendei vede se há dor igual à minha dor”. Não há outro momento de tão completa significação artística na cidade.
Encerrada a procissão, as imagens são postas dentro da igreja para serem veneradas e aí já começa a vigília, com os fiéis beijando o manto de Nossa Senhora das Dores e o Cristo Morto. Paralelamente, o Grupo de Canto da igreja continua os hinos de lamento, mas de forma ainda mais encorpada, aproveitando a acústica do templo. Isso vai prosseguir por horas, e lá estará de novo a população respondendo com o refrão, até o cansaço desarmar a todos. Quanto mais a hora avança, maior o desgaste, mas a resistência é surpreendente. Já pela metade da cerimônia, as vozes esgotadas se aproximam umas das outras, o langor é comovente, as pessoas fecham os olhos com sono e já não precisam lembrar-se do que ocorre lá fora. Estão realizando os mesmos gestos dos antepassados, numa ação que é sim dolorosa, mas sublime, e que, por isso mesmo, lhes resgata de outras dores do cotidiano. Para completar, as luzes da igreja são diminuídas e começa o Ofício da Paixão, que segue entoado, com o mesmo sentimento de melancolia, por mais uma hora até o fim da celebração.
O registro de todas estas coisas, além de buscar descrever o mínimo da tradição, pretende servir de introdução para um debate que a cidade de Araci precisa urgentemente realizar. Listo abaixo algumas das críticas que ouvi com relação à manifestação cultural da Semana Santa e o ponto de vista de alguém que participa dela há décadas, seja fotografando, escrevendo e também como devoto.
– A tradição está esvaziada e desorganizada – O público da Semana Santa tem se mantido basicamente o mesmo. Não cresceu, comparada ao aumento da população, mas não perdeu a participação, salvo em anos de notável dificuldade para acesso das comunidades mais pobres, como foi a seca de 2013. Quanto à organização, é preciso lembrar que a população simples tem um jeito despojado de agir. Algumas correntes dentro da igreja sempre tentaram e tentam uma uniformização, com razoável sucesso, mas a naturalidade dos homens e mulheres locais muitas vezes recusa a formação de filas nos cortejos, o que não chega a comprometer os eventos. Sempre foi assim, a despeito de quem pretenda um espetáculo militarmente “organizado”, para turista ver. Por outro lado, o poder público, quando tenta interferir com guardas, carros de controle e outras regras, mais atropela do que ajuda.
– A Semana Santa exalta a dor e é deprimente – A dor é uma expressão humana tão válida quanto qualquer outra, e inspirou belíssimas obras de arte em várias sociedades. Somente para tomar alguns exemplos, é responsável pela ópera, pelo tango, pela tragédia grega e diversas outras formas artísticas, até mesmo o samba (“Pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”). Por outro lado, se nos acovardamos perante a dor, podemos recair no outro extremo, o oba-oba e a diluição, que resulta em produções fáceis, baratas e varejeiras que abundam na mediocridade dos meios de comunicação social.
– A Semana Santa é uma manifestação exclusivamente católica, dispensável para o município – Araci foi totalmente desfigurada nos últimos anos com a destruição de todas as casas mais antigas, e restam somente poucas coisas conservadas desde os primeiros anos da cidade como a capela do Bonfim, o cemitério velho e a tradição da Semana Santa. Somente quem visualiza estes elementos pode entender a história da cidade. Se são todos eles católicos, isso se deve ao perfil – passado e presente – da comunidade. É também este perfil que explica porque esses monumentos materiais e imateriais ainda estão de pé. Varrer estes símbolos seria como destruir as estátuas mitológicas da Grécia, as pirâmides do Egito e grande parte da arte do mundo somente porque tem origem religiosa. Em tempo: destaque-se ainda como símbolos de resistência cultural araciense o reisado, as canções de lavoura, banda de pífanos e outras manifestações festivas.
 – A religião é inútil, significa atraso cultural – Nada assegura que pessoas não-religiosas sejam mais cultas, menos preconceituosas, mais solidárias ou que estejam mais preparadas para os desafios do futuro. Pelo contrário, a religião pode ser um poderoso instrumento de organização social e a Semana Santa é o coroamento de campanhas da Fraternidade que, nos últimos anos, levou a debate temas como a Ecologia (“A Terra Pede Socorro”), o Tráfico de Pessoas etc. Além do mais, diante de um cenário em que a tecnologia dispersa as pessoas e o próprio sentimento humano, além das inseguranças do transumanismo, é cada vez mais relevante ter esta referência comunitária para enfrentar o embrutecimento. Além do mais, o sentimento religioso, por si só não compromete o senso crítico, que se pronuncia dentro e fora das congregações.
Por último, há outros fatores que precisam ser considerados: esta tradição funciona independente de grandes aparatos, como um sistema perfeito. Os participantes já a têm integrado no seu calendário anual, sabem de cor o que devem fazer e não precisam desembolsar além das suas capacidades – ao contrário, a adesão é gratuita. Ressalte-se também que novas gerações vão aderindo e assumindo posições-chaves na realização dos eventos.  Deve-se ainda reiterar que as manifestações dispensam influências exteriores, das cidades vizinhas, sendo que cada município da região encaminha sua própria forma de manifestação no período. Assim como Araci, somente Araci. E os cantantes da igreja – Grupo de Canto e população –, com a sua simplicidade, protagonizam momentos de encantadora excelência estética no sertão da Bahia.
Franklin Carvalho é jornalista e escritor
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