Integralismo no sertão: a marcha mais insana*

Autor: Franklin Carvalho
Publicado em: 07/11/17

O texto abaixo contém o depoimento do farmacêutico Fábio Carvalho, morador da Vila do Raso nos anos 1930, no sertão da Bahia, ao professor Anatólio Oliveira, da Universidade Federal da Bahia, enfocando as tensões cotidianas surgidas com a presença do movimento integralista na localidade. A Vila se tornou autônoma como Município de Araci em 1959 e Fábio e Anatólio, ambos naturais da cidade, já são falecidos. O documento manuscrito foi obtido pela professora Ana Nery Carvalho, autora do livro Memórias de Araci, e sua redação data de janeiro de 1994.  A transcrição aqui publicada respeitou ao máximo o original, mesmo quando se nota a falta de pontuação, mas a legibilidade é possível em seu inteiro teor. O trecho ao final “Missa ou após a missa…”, que integra também o documento recuperado, foi mantido, embora enfoque outro assunto. A intenção em deixá-lo aqui é revelar outros aspectos da cidade.
Integralismo em Araci (Bahia)
Depoimento do farmacêutico Fábio Carvalho ao professor Anatólio Oliveira
Em 5 de janeiro de 1994
1-Quando foi fundado o integralismo em Araci?
Se recorda que em 1935 já havia o grupo se organizando, sendo a sede na fachada oeste da Praça da Conceição, em casa atual da viúva Inácia Pereira (João Barraca)
2-Métodos de aliciamento
Os adeptos do movimento eram conseguidos por intermédio dos discursos proferidos nas sessões dominicais, na sede citada, formando um verdadeiro comício interno. Muitos curiosos enchiam as calçadas da sede e casas vizinhas e se espalhavam na praça, nas adjacências do prédio. No salão entravam apenas os integralistas envergando suas calças brancas e a camisa verde com o Sigma em um dos braços. Muitas pessoas se entusiasmavam com a doutrinação ideológica do movimento e pediam sua inscrição que, se aprovada, a pessoa obtinha a sua entrada nas hostes, recebendo logo o seu cartão de protocolo.
Havia também outro tipo de aliciamento de caráter individual. Um exemplo: o Sr. Isidoro Ferreira dos Santos, conhecido por Isídio de Libânio, na área do Junco, Bom Sucesso e Roça de Baixo. Ele conversava com as pessoas ali residentes, convencendo algumas a fazerem parte do grupo depois de uma ou mais visitas.
No caldeirão, Já ao norte de Araci, tínhamos como catequista Firmina Ferreira da Mota. Na região da Serra (a oeste da vila), áreas do Boi Morto, Inácio… (de Lúcio), encarregava-se da doutrinação, assim acontecendo em outras áreas rurais do então Distrito, como aldeias e povoados.
3-Como eram realizados as sessões?
Eram abertas com a entoação do Hino Nacional e logo em seguida começavam ou discursos, tendo como orador oficial o jovem Erasmo de Oliveira Carvalho. O comando do movimento estava nas mãos do Sr. José Justiniano Mota. Após terminado o primeiro discurso a palavra era franqueada aos companheiros. Havia alguns algo coerente e a maioria consistia em disparates, frases comuns que denotavam apenas fanatismo. O início das sessões tinha lugar às duas horas da tarde, prolongando-se até as 21 horas, sendo que, após o transcorrer de determinado tempo, era interrompida para uma longa marcha pelas ruas da vila cantando o hino oficial Mocidade Brasileira, e ao retornar à sede, antes do encerramento, novos discursos de agradecimentos aos companheiros, finalizando a sessão com o canto do hino, ou seja ”Mocidade Brasileira”, já citado.
 4-Havia intercâmbio com grupos de outras cidades vizinhas?
Havia visitas individuais. A mais frequente era a de um senhor conhecido como Lisboa Fabiano que, embora de família araciense, residia em Serrinha, sendo um dos lideres da Ação Integralista Brasileira naquele município. Visita de grupo organizado houve apenas a do Núcleo de Pedras (atual Teofilândia) que será relatado em detalhes a seguir no item ”Episódios”.
O único jornal que divulgava o movimento na região era ”O Serrinhense”, que por ser quinzenal e de tiragem reduzida era pouco difundido, devido talvez ao preço do exemplar. O proprietário desse jornal era Jovino Franco tendo como redator seu filho Bráulio de Lima Franco. Tal jornal tinha como opositor ferrenho em Serrinha o “Jornal de Serrinha”, de propriedade de Jonas Hortelio.
5-qual a temática dos discursos proferidos
Dominava os discursos a ideia de que o integralismo era a salvação do Brasil, o único ajuntamento político capaz de combater o comunismo ateu da Rússia, visto que nos outros partidos havia uma infiltração de comunistas, não passando todos eles de lobos vestidos de cordeiro. O comunismo era a principal temática dos discursos apontando-o como um verdadeiro “bicho papão” capaz de destruir a pátria e a família com seus pretensos crimes e horrores. Na maioria das vezes os discursos eram xingamentos ao comunismo do princípio ao fim.
6-Nomes dos dirigentes, e dos principais propagandistas
O chefe, como já foi dito, era o Sr. José Justiniano Mota, cuja família estava completamente engajada. Entre seus parentes mais chegados, contavam-se Torquato Moreira, Álvaro Ferreira, Vigílio Bacelar Vital Ferreira, Maria Lídia Dominicano Oliveira e sua esposa Maria de São Pedro.
Outras pessoas se destacavam pelo entusiasmo como Dona Maria Campos (Sinhá Bia), Cesário Paulo, Felipe Soldado, Antônio de Joaninha (do Ichu), Acelino Carvalho, Zulmira Jacó e outros.
Vimos já os propagandistas encarregados da divulgação da Ação Integralista em áreas e regiões do Distrito.
7-Insinuação de imunidade
Uma senhora, moradora no Ichu, próximo à Fazenda Remanso, tinha alguns filhos que frequentemente estavam na cadeia por roubo de bode. Quando ingressou no integralismo com o marido, apregoava aos quatro ventos: “- Graças a Deus, nós lá em casa samo tudo tegalista, agora quero vê o Nicolau metê meus fio na cadeia.” Convém lembrar que o Sr. Nicolau Carvalho desempenhava a função de delegado.
Foi difundida a ideia de que um integralista não poderia ser preso, principalmente envergando sua camisa verde.
Isso trouxe uma série de complicações, havia um integralista de prenome Alvino, natural das bandas do Tapuio, casado com Sebastiana, filha de Melquiades filha de Juliano [???], que por motivos fúteis se desentendeu com a mulher. Então deu-lhe uma sova violenta, deixando-a prostrada. Nicolau mandou recolhê-lo à prisão. Isso alvoroçou os dirigentes integralistas que imediatamente enviaram um mensageiro a Serrinha para certificar do fato ao chefe regional Sr. Lisboa, o qual incontinente veio para Araci, decidido a reagir e tomar providência porque ”fora preso um integralista”. Convém lembrar que o mesmo não foi informado das causas da prisão. Aqui chegando, discutiu acirradamente com o delegado sendo posto a par do ocorrido, chegou a conclusão de que a autoridade teve assaz razões para agir daquele modo e, simplesmente limitou-se a queimar a ficha de inscrição e a camisa verde em plena praça, exclamando: – Para nós integralistas morreu o nosso companheiro Alvino!
8- Episódios
Foi promovido um baile, no salão principal da extinta prefeitura, por pessoas da sociedade que não tinham simpatias pelo movimento ou não estavam nas fileiras por isso eram consideradas comunistas. Todavia a festividade não possuía nenhuma conotação política, estando à frente o cabo polícia Artur de Tal, comandante do destacamento. No entanto, os promotores cometeram um erro fatal: colocaram algumas fitas de papel vermelho, usadas como decoração, em meio às demais cores. Foi então levada às autoridades estaduais a denúncia de que o baile não passava de uma festa comunista, promovida por comunistas e a cor utilizada como enfeite era unicamente vermelha, quando, na verdade, existiam miríades de cores. Aberta uma sindicância por oficiais da polícia (isto porque constava o nome do cabo Artur) de Salvador, foi comprovado que a denúncia era improcedente, ficando desmascarados os denunciantes. O cabo pegou uma pequena punição sob o pretexto de que não devia se envolver com festas.
Manoel Adanco de Carvalho negociava com secos e molhados no início da Rua Barão de Geremoabo. Apesar da rixa existente entre os camisas verde e a polícia, vendeu fiado a um soldado 4$000 de gêneros no meio da semana. Na segunda-feira logo cedo mandou seu irmão Inocêncio (Cicinho) cobrar a este soldado a referida dívida. O soldado respondeu que o comandante estava viajando e que aguardasse até que esposa do mesmo fornecesse o dinheiro. Uma hora depois mandou cobrar novamente obtendo a mesma resposta, acrescentando que até o momento a referida senhora não fizera o pagamento. Algum tempo depois repetiu-se a cobrança. O soldado não deu resposta. Deu as costas ao portador, rumou para o quartel (onde hoje está a Lanchonete Pinho), apanhou um fuzil, chegou até a frente do estabelecimento comercial e deu alguns tiros na direção das prateleiras, fazendo o proprietário pular o muro para a casa vizinha escondendo-se em local intimo, na camarinha, com a porta trancada por fora pela pela proprietária Gertrudes que entregou a chave.
Nesse ínterim, um grupo de integralistas que se encontrava na sede da entidade foi notificado e partiram armados de cacetes adquiridos nas armações de proteção às árvores novas. Ao penetrarem na Rua Barão de Geremoabo foram barrados pelos cidadãos Nicolau Carvalho, Joaquim Rodrigues Dantas e José Pinheiro que os advertiram de que voltassem porquanto o soldado, em desespero, continuava armado e atirando podendo, sem dúvida, ferir, matar e até exterminar o grupo. Embora os três cidadãos não pertencessem às fileiras do Sigma, foram atendidos, evitando-se piores consequências. Quando o comandante chegou deu cobertura ao soldado e ainda disse: – Foi muito bom eu não estar aqui. Se estivesse não ficaria um integralista vivo.
O caso de Torquato e o Soldado Cordeiro
Num dia de feira, Torquato, de camisa verde, encontrou um soldado conhecido por Cordeiro [que] comia doces numa banca em frente ao cartório de Pequeno. Ao vê-lo, começou a provocá-lo de longe dizendo: – Soldado só tem valor no interior, na Bahia (nome usual como era denominada a capital do Estado) soldado é considerado pano de pegar panela, pinico e outras frases depreciativas. O soldado ouvindo tais insultos enfureceu-se, desembainhou o sabre e passou a desferir golpes no dorso do insultante. Pequeno saiu do cartório e veio em socorro do cunhado, apanhando também bonitos golpes. Observando a briga estava um integralista bastante conhecido de alcunha João Miolo. Torquato gritava: – Me acudam companheiros!. Em vez de acorrer em seu socorro João Miolo saiu em disparada pelo Beco de Dominiciano refugiando-se na casa de Vestina, sua mãe, com as portas trancadas.
A nomeação do delegado
Quando Getúlio Vargas deu asas ao integralismo, os chefes regionais nomearam arbitrariamente pessoas de suas hostes sem que os titulares legais houvessem sidos exonerado. Para Araci foi nomeado o cidadão Manoel Adarico de Carvalho (Maninho) que em apenas uma semana de glória praticou verdadeiras atrocidades, depois de armar elementos de sua gente num corpo paramilitar clandestino. Mandou prender em [povoado] João Vieira o jovem Temístocles de Góis que havia militado nas fileiras verdes e por uma razão qualquer desistiu, entregando a camisa verde, a qual foi queimada em praça pública. Tal perseguição foi ativada devido ao referido jovem, após desertar do movimento, ficar criticando a ideologia e deste modo impedindo novas filiações. Tal intento não foi concretizado porque uma vez avisado, o rapaz embrenhou-se nas caatingas do Guerra, fazenda de propriedade do seu tio Ambrósio Góis, tornando impossível a captura pelo fato de ser local de difícil acesso para os perseguidores.
Getúlio, passada esta semana, implantou o Estado Novo [1937], retirou o apoio que dera ao integralismo e moveu-lhes tenaz perseguição, mantendo os titulares que na verdade eram as autoridades legais.
O caso de Gorda
 Noite de São João de 1936. O pessoal estava em reunião na sede, presididos pelo senhor José Justiniano Mota. De repente chegou a notícia. Desabou uma parede da casa de Gorda, ficando a velha sob os escombros. José Mota, imediatamente arregimentou a verdinhagem e em marcha acelerada dirigiram-se para o local do desabamento. Lá chegando, retiraram a taiparia, os torrões de barro, até retirarem a velha que ainda com vida foi salva a tempo.
José Mota, o chefe, colocou-os em forma e bradou: – O papel do integralista é esse!
  Os Ismos
  Depois do golpe de 1937 [Estado Novo], o Padre Carlos Olímpio Ribeiro que anteriormente cultivava alguma simpatia pelo integralismo, por convivência, no sermão da missa dominical, com a igreja matriz lotada, passou a vociferar contra as correntes políticas surgidas naqueles últimos anos, mais ou menos nestes termos:
– Nazismo, fascismo, comunismo, integralismo é tudo podridão, meus irmãos, vamos nos esquecer dessas coisas, desses ismos.
Assim que pronunciou a última palavra “ismos”, o Sr. Torquanto Moreira, integralista de quatro costados que assistia à missa na outra extremidade da igreja, debaixo do coro, em sinal de protesto, bradou às quatro paredes, acrescentando: -Cristianismo, deixando o padre e os oficiais quedarem-se atônitos, sem nenhuma ação imediata.
 A visita do Núcleo de Pedras ao de Araci – 1937
No dia em que estava marcado a visita, o delegado Nicolau Carvalho pela manhã recebeu por intermédio de André Matos, empreiteiro construtor de estradas, um telegrama enviado pelo Chefe Secretário da segurança, Dr. João Facó, com o seguinte teor: – Deveis proibir o uso da camisa verde. Ante isso, o delegado dirigiu-se à residência do seu cunhado e chefe da seção local da AIB Sr. José J. Mota e mostrou-lhe a mensagem. Este ficou preocupado, sem saber o que fazer. Estava aguardando a chegada de um grupo de visitantes do Núcleo de Pedras e o pessoal, sem dúvida, chegaria com fome e com sede, extenuados pela marcha contínua de 18 Km, feita evidentemente a pé, sem direito de usar montaria. Todos envergando o uniforme integralista, calça branca e camisa verde.
O delegado para minorar a situação aconselhou-o a mandar alguns prepostos ao local denominado Tiracó, próximo à entrada sul da cidade [Vila], para avisar aos visitantes o que estava ocorrendo e como solução guiá-los pela periferia oeste da Vila e outros pelo fundo da residência do chefe local, e ainda que não permitisse que nenhum deles ultrapassasse o limiar da porta da frente vestido de camisa verde para não provocar atrito com a polícia que estava alertada com o objetivo de reprimir os radicais, que ousassem sair à ruas uniformizadas.
Um elemento recalcitrante foi comprar doces em um tabuleiro na feira livre. Um soldado, vendo-o, (conhecido com Manoel João) aproximou-se e deu-lhe um pontapé no traseiro berrando palavrões. O elemento então saiu em disparada em direção à concentração dos companheiros, os quais, depois de um merecido descanso e saciarem a fome e a sede, tocaram em retirada, encerrando-se o incidente.
 Missa ou após a missa ou na maior parte das vezes, o término das rezas
Quando Rufino terminava o culto ou seja as orações e cânticos da novena, o samba campeava no terreiro da Areia Branca, às vezes iluminado pelo luar do sertão, temperado com a boa cachaça de Laranjeiras, Sergipe, não faltando também jogos de azar, notadamente o baralho, interrompido de vez em quando por divergências que causavam bastantes brigas, até o amanhecer.
 *Texto originalmente publicado no blog https://casapassara.blogspot.com.br
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