Araci: aniversário de 200 anos

Autor: Franklin Carvalho
Publicado em: 04/05/17

 Araci: aniversário de 200 anos*

Semana Santa é tempo para Recordar. Lembrar da família, dos antepassados, dos amigos. No aniversário de 200 anos da fundação de Araci, é ainda mais forte a lembrança. Quem tiver mais de trinta anos e olhar para os recortes de jornais expostos pela professora Ana Nery Carvalho no Centro Cultural da cidade vai ter motivos para relembrar ainda mais:

1) Recordar que a luz na cidade só era fornecida até as 10 horas da noite. Depois disso, se desligava o motor a óleo diesel e ninguém mais queria nem precisava ficar na rua. À noite, o movimento no centro da cidade era de sapos, lagartixas, grilos e vagalumes. Hoje até parece que esses bichos estão em extinção;

2) Por falar em luz, quem tinham energia elétrica em casa, colocava uma só lâmpada para iluminar dois cômodos. A lâmpada ficava entre o telhado e a parede e quando era acesa clareava tanto a sala quanto o quarto;

3) As ruas da cidade eram areais onde as crianças brincavam e se emborralhavam logo que a noite caía. Se faltava energia, a coisa ficava melhor ainda, com brincadeiras de bater lata e moças cantando sob a luz da lua, enquanto quebravam licuri com pedras. Todo mundo conseguia ver são Jorge na Lua e sabia uma historia de lobisomem. As estradas do Bonfim e da bombinha eram consideradas mal-assombradas até de dia;

4) Na Semana Santa, as mulheres vestiam luto, não pintavam unha, não lavavam o cabelo, não faziam festa, as crianças não cantavam roda, e era pecado mortal um homem beber ou jogar. Na Sexta-Feira da Paixão, quem não ia rezar pelos parentes falecidos no cemitério, subia a ladeira do Bonfim. E tinha gente que fazia as duas coisas;

5) Quando apareceu a moda das mulheres usarem vestidos de “costas nuas” foi um escândalo. Mulher usar calças era coisa do demônio. De repente a juventude começou a vestir uma roupa diferente chamada jeans, calça jeans, que só se lavava de mês em mês, mas as mães tinham que botar para quarar em cima das pedras, para ver se arrancava a sujeira;

6) O Cemob era chamado de ginásio, ensinava somente da quinta à oitava série e os alunos iam todos os dias usando as mesmas calças de tergal e sapato conga ou Kichute. Houve época em que era preciso fazer exame de admissão para entrar e aí era necessário ter aulas com a professora Valdeci, com dona Edna ou com Júlia Pinheiro. Para as crianças, havia a professora Angelina; aula de Religião, dona Anita; de Moral e Cívica, professor Zelito Pastor; Português, Lourdes, Baíca ou Laílson; Matemática, Dunga. E tantos outros mestres que a memória vai carregar para sempre;

7) O Judas de Coló, que estaria sendo queimado no dia de hoje, sábado de aleluia, com os versos que o próprio Coló fazia; a novena de dona Iaiá; o alto-falante A voz Cultural, de Renivaldo; os remédios receitados por Nicolau; o

motorista seu Valtinho, no Expresso Nossa Senhora de Lourdes, sempre contando com a presença de seu Cordeiro; os curativos de Zé Enfermeiro e as rezas de Tico;

8) Bom mesmo era cortar o cabelo na barbearia de Jorge e Luiz alfaiate, ou com Zezinho, ou então com Dilau, e tomar um refrigerante Mirinda bem gelado no bar de Nelinho, na praça, ou no armazém de Sensinho. Quando tinha micareta, Zé Pinho trazia o Trio Tapajós e o Trio Saborosa e a juventude brincava de mortalha e careta, assustando as criancinhas. Em fins de semana a festa era no clube Arba, onde a comunidade assistia os desfiles de concurso de misses;

9) Como não havia televisão, à noite, as famílias ouviam a voz do Brasil pelo rádio. Nas tardes de domingo não havia nada, exatamente nada para fazer, a não ser ir passear no jardim, comer pipoca ou churrasco de Piniquinho e ouvir futebol no radinho de pilha. E quando a televisão chegou, era preto e branco. Fazer o que então? Comprar aquele plástico de três cores: em cima azul, no meio vermelho e embaixo verde, que era para dar um colorido;

10) Tinha também Broquinho , coberto com uma manta pesada de lã nos dias de sol, pedindo dinheiro numa cuia; Boninho chamando todo mundo de dioxossi; Orobó, dançando nos bares; Cecé, um anjo de bondade; João da Dominga com sua risada e a mansa Zefa, e todo mundo respeitava e socorria quem precisava de ajuda;

11) Na seca de 72, a fome foi tanta que todo dia passavam caixoezinhos de anjos, com crianças pequenas. Por aqui aparecia o grupo da Tradição, Família e Propriedade, com seu estandarte vermelho e as pessoas achavam que era o fim do mundo. Toda hora alguém dizia que o mundo ia se acabar, e uma vez, realmente, o posto de gasolina incendiou e a cidade quase pega fogo. Araci também quase se acabou afogada com a tromba d’água de 1978, que fez açudes e barragens explodirem;

12) O nosso problema sempre foi a seca, mas nós tínhamos o Tanque da Nação, os lameiros do Coqueiro e da estrada, onde hoje existe o Estádio Municipal. A água salobra do Jacu e do Poço Grande; a barragem do maracujá, onde muita gente se afogou e outros arrumaram namorada. Quando a seca apertava, havia fila no caminhão pipa, na bica da Bombinha ou o burro trazia dois barris carregados na cangalha. A vida era difícil, mas sempre havia alegria, nem que fosse o batismo de um filho, o casamento de um primo. Tudo abençoado por Padre Osvaldo e registrado pelo fotógrafo Jefinho. Como Jefinho era adventista, o casamento acabava sendo abençoado por duas religiões;

Tudo isso são recordações de um tempo que passou… Mas será que passou mesmo? Será que as coisas boas não existem mais? Esse lugar chamado Raso está tão mudado? Que nada! Ainda dá para tomar refresco de laranja e comer cuscuz no bar de Luiz, na rua José Pinheiro, e sentir o vento do tabuleiro; ainda dá para almoçar ensopado de frango em uma barraca de feira, ainda dá para ver as estrelas e o luar do sertão, ainda dá para acreditar no

futuro da cidade, apertar a mão do vizinho e dizer “Feliz aniversário, araciense”.

 

Franklin Carvalho

Apresentação lida no lançamento da exposição no Centro Cultural de Araci