A história de Araci é mais complexa do que pensamos*

Autor: Felipe Sales
Publicado em: 05/06/17

Tanque da nação. 1983

Pouco se aprofundou sobre a história de Araci. Portanto, já paramos para refletir que a nossa história é mais complexa do que aquela tradicionalmente apresentada? Provavelmente, não; a contar pelo que é estudado nos currículos escolares e pelo que se lê nos textos oficiais.  Aprendemos que a história da cidade se inicia com o afamado, eminente e vertiginoso Capitão José Ferreira de Carvalho, que, no ano de 1812, fundou sua Fazenda no entorno do Tanque da Nação e lá residiu. Entre tropeços e perrengues, sucessos e insucessos, a fazenda cresceu e tornou-se a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Raso. Com emancipação decisiva em 1956, Araci é uma cidade jovem e carente por sua história. Com exceção de estudos e trabalhos louváveis, como o da professora Ana Nery Carvalho (2014), e clássicos, como o livro de Mota Carvalho Lima (1985), pouco se explorou nossa história.

Igualmente, quando explorada, a história tem a chegada do Capitão como inicio e não avança a aspectos antropológicos dos processos. Discorre-se sobre os processos administrativos ou sobre as personalidades familiares. Mas a história é maior que isso. Já paramos para pensar o porquê do nome do Tapuio? Já refletimos sobre o Quererá? E o nome “Araci”? Ambos são tem topônimos de origem indígena, do tronco linguístico tupi. Os tapuias eram os grupos não tupis. Traduzindo; eram os “bárbaros”. Araci, ou a’ra sü, também em tupi, é Mãe do Dia, Aurora ou a Luz do Dia. E Quererá? A dúvida me surge. Seria uma variação do verbo “querer”? Seria esse verbo no futuro do presente simples ou mais um topônimo de origem indígena? A entonação é forte à moda indígena. Mais que isso, basta conversar com os mais velhos e ouvir: “aqui era terra de índio”. A história cultural das tribos pré-coloniais está repleta de relatos assim: os tupinambás optavam por terras altas, planas, frias e próximas a fontes d’água. Essa não seria uma descrição do Quererá? A bica, como dizem, foi descoberta por índios.

Diante disso, refletimos: então, a história de Araci é maior (…). Tivemos índios antes da chegada do eminente Capitão! Só isso? Certamente, não!
Araci não é uma terra de pessoas predominantemente brancas ou pardas. Há negros, muitos negros. A belíssima cultura africana também é muito viva na cidade e seus traços também. Basta recuarmos às informações da presença de escravos na fazenda de José Ferreira. É por todos esses aspectos que devemos refletir: enquanto Aracienses; quem somos? Certamente a consequência da mistura de toda essa complexidade biológica e, principalmente, cultural. A pluralidade nos define e nos caracteriza. A história desse dinâmico processo do que hoje vem a ser Araci precisa ser, cada vez mais, explorada. Por isso, convido os jovens de Araci a refletir sobre o tema e, para aqueles que fazem cursos superiores de História, Geografia, Arqueologia, Antropologia e afins, os instigo a pensar nossa cidade com um olhar mais profundo e completo.

A cidade ainda não está inserida no ciclo do desenvolvimento de grandes projetos infraestrutura. Executei e coordenei dezenas de serviços no licenciamento ambiental e cultural. Vi, em muitos casos, pesquisadores sem nenhuma identidade local escrever sobre a história de cidades, com resultados risíveis, pois não havia interesse dos estudiosos ou moradores locais. Não havia bases contextuais pré-estabelecidas. A pouca profundidade das produções e o consequente baixo aproveitamento histórico cultural é muito comum. Ao trabalharmos esses temas na UEFS, FTC, UFBA ou UNOPAR, mesmo que de forma incipiente; estaremos prontos para quando a região receber os famosos Parques Eólicos, as Linhas de Transmissão ou demais obras estruturantes. Já teremos um arcabouço estabelecido para dizer: em nossa cidade já existimos e os estudos de licenciamento podem (e devem) ser produzidos com qualidade e com nossa participação. Os valores são altos e os resultados nem sempre são compatíveis. Acordarmos para essa realidade é um passo necessário.

*Texto originalmente publicado no site avozdocampo.com em 04/04/2017

Felipe Silva Sales – Arqueólogo e Preservador Patrimonial | MBA em Gestão Ambiental